sábado, 16 de maio de 2009

DINAMISMO CULTURAL

I. INTRODUÇÃO

A presente abordagem pretende englobar todo o processo cultural tendo como objectivo central mostrar que as culturas estão sempre em mudança. Mesmo aquelas culturas que parecem estabilizadas e inertes, também elas estão em permanente movimento. É nossa intenção traçar as linhas gerais do comportamento das culturas.
Toda cultura poderá ser considerada entre dois extremos: um estado de estabilidade (funcionamento) e outro de mudança (transformação).
Daí nasce um movimento repetitivo que corresponde ao simples funcionamento, por um lado; e por outro, o funcionamento se transforma, o que vale dizer, que a própria unidade mudou de forma (a estrutura social, a organização social mudou).
Interessa saber como a estabilidade institucional é mantida. Abordaremos, então, a cultura institucionalizada com o processo correspondente, isto é, a enduculturação ou enculturação. O aspecto sincrónico da cultura.
Na segunda parte abordaremos o aspecto diacrónico da cultura, a mudança cultural, com os processos que lhe são próprios: descoberta, invenção, difusão, aculturação.


II. CONCEITO DE CULTURA

Cultura é um conjunto complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes e várias outras aptidões e hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade. Incluis, pois, todo o comportamento humano.
De acordo com DE NAPOLI (1985/86: p. 1), “cultura é um conjunto de significado de valores partilhados e aceites por uma comunidade”. Resumindo, é a maneira de viver de um grupo humano, valores e comportamentos.

III. DINAMISMO CULTURAL

A cultura pode ser dinâmica ou estável.
Ela é estável (identidade, tradição) enquanto se sublinha a tradição e a institucionalização de padrões de comportamento. Tradição não significa repetição (BOKA DI MPASI, 1986).
De acordo com MARTINEZ (2003: p. 42), a cultura é dinâmica pois este em constante transformação, obedecendo os seguintes aspectos:
Ø Lei de vida: a cultura muda, como um ser vivo (exemplo do corpo…); as mudanças podem ser pequenas ou grandes, despercebidas ou violentas;
Ø Mudanças despercebidas: a própria natureza da aprendizagem lhe determina uma transformação lenta;
Ø Mudança consciente: a cultura também experimenta a mudança desejada e consciente;
Ø Mudanças violentas: encontros culturais: a mudança ocorre em razão de novas necessidades provocadas pelas novas situações.

ASPECTOS SINCRÓNICOS: ENCULTURAÇÃO

De acordo com MARTINEZ (2003: p. 51), citando BERNARDI, enculturação é um processo educativo pelo qual os membros de uma cultura se tornam conscientes e comparticipantes da própria cultura.
HERSKOVITS, citado por MARTINEZ (2003: p. 51), diz que enculturação são os aspectos da experiência de aprendizagem que distinguem o homem das outras criaturas e por meio dos quais, inicialmente, e mais tarde na vida consegue ser competente em sua cultura.

Aspectos Gerais

Estabilidade Sócio-Cultural
Os estudiosos (antropólogos e sociólogos) ao tentarem explicar o porquê da estabilidade sócio-cultural das populações, concluíam que as mesmas são dirigidas por uma normativa garantizada pelas sanções sociais.

Estabilidade Normativa
As normas sociais (usos e costumes e as leis) são impostas aos membros da sociedade; é necessário ter em conta a distinção entre pessoa e padrão (igual a norma), entre sociedade e cultural.

Função de Controlo Social
Consequentemente, a cultura teria como uma das suas funções mais importantes a do controlo social, tendo em vista o funcionamento da sociedade.

Carácter Institucional
É possível constatar o carácter institucional padronizado, repetitivo e relativamente fixo da cultura; podemos constatá-lo nos usos, costumes e leis de um determinado grupo; o mesmo acontece na linguagem e na simbologia: temos modos consagrados, estáveis, de agir e de dizer as coisas; a própria comunicação entre os membros de um determinado povo exige um padrão bastante fixo de símbolos, de modo a permitir a compreensão das mensagens.

Padrões de Comportamento
A manutenção de padrões de comportamento atende à necessidade de prover à sobrevivência das populações.
Seria exagerado afirmar que a cultura é a única responsável pela manutenção da estabilidade da sociedade ou do convívio social (exemplo dos animais que vivem em convívio amigável sem eles serem depositários de cultura). Devemos reconhecer que seria superestimar o carácter normativo e continuista da cultura, atribuindo-lhe a exclusividade nesta tarefa.


Processo de Enculturação
A criança, ao nascer, tem um comportamento 100% biológico. Mas logo passa a receber o impacto da cultura. Dão-se os seguintes passos:

Assimilação: Assimilação de comportamentos padronizados que a criança observa à sua volta.
Conformação: a tendência é absolver o máximo de cultura e conformar o comportamento a ela.
Aprendizagem dos símbolos: aprender todo dispositivo simbólico que lhe permitirá à criança comunicar-se com os outros membros da sociedade e tornar-se apta para o processo intelectual, sensitivo e volitivo.
Aquisição de hábitos: adquire hábitos e costumes, disciplinará seus movimentos biológicos e sofrerá uma mudança progressiva que transformará seu comportamento de 100% biológico até ao ponto máximo de 100% cultural. Mas nenhum ser alcança tal extremo, embora todos os recém-nascidos seguem o rumo indicado, do nascimento à maturidade.
Interpenetração: no homem, todos os fenómenos inorgânicos, biologicoe e psicológicos estão marcados pelo selo da cultura; dá-se uma interpenetração de todos eles; e não é fácil distinguir até aonde vão uns e outros; todos esses fenómenos tornam-se humanos, isto é, fenómenos especiais e típicos da vida humana conformados pela cultura.
Duração: o processo da enculturação estende-se por toda vida do indivíduo e apresenta variações e intensidades diversas:
Ø Na infância: revestem-se de muita importância as primeiras experiências e contactos com a cultura (os condicionamentos fundamentais, tais como comer, dormir, falar, etc.); com este processo a criança vai modelando a sua personalidade;
Ø Na idade adulta: o processo torna-se mais consciente, pelo que pode dar-se a aceitação ou a repulsa.
A endoculturação é muito importante para tornar o indivíduo membro ajustado à sociedade. Rigorosamente, o processo que estudamos, especialmente nos primeiros anos, reveste-se de um carácter impositivo, isto é, a cultura sobrepõem-se ao indivíduo: os recém-nascidos jamais escolhem os valores culturais que vão assimilando; isto seria a todas luzes impossível, porque não podemos conceber opção em uma criancinha que não conhece sequer o dispositivo simbólico da sua cultura.

g. Determinismo: pode-se falar de um determinismo cultural ao falarmos do comportamento humano; uma criança recebe todo um conjunto de experiências já consagradas pela cultura; tem que aprender o idioma que se usa no seu grupo e comportar-se como o fazem os outros membros da sociedade. No momento em que ela começa a fazer uso das suas faculdades mentais, o faz segundo os valores culturais interiorizados, isto é, baseada na sua cultura aprendida. Mesmo já adulta, a conduta pessoal e consciente do individuo não deixa de ser uma expressão da cultura.
O homem uma vez enculturado, jamais deixara de ser um agente da sua própria cultura. Mas, mesmo assim, na idade adulta este processo torna-se maleável, fazendo um conjunto misturado de formação e reformulação. A cultura penetra toda a vida do individuo, pois ela modela não só o seu comportamento biológico, mas também o psicológico.

Três etapas:
- Infância: aceitam-se todas as mensagens da cultura,
- Maturidade: aceitam-se em função da cultura anterior (ou reformulada);
- Velhice: raramente se aceita uma reformulação, pois a culturas interiorizada esta como cristalizada, tornando-se impermeável à novas sugestões.

ASPECTOS DIACRÓNICOS

Na tradição antropológica poucos são os estudos sobre a mudança cultural, pois até pouco tempo os estudos antropológicos limitavam-se ao estudo de culturas isoladas. Ultimamente estão a aumentar os estudos sobre a mudança desde o ponto de vista antropológico.
Hoje não há povos isolados. A tecnologia moderna está presente em qualquer parte do mundo. E com os seus potentes meios de comunicação social põem em contacto directo os vários povos da terra.
Não é difícil explicar a mudança cultural.
A mudança e o conflito cultural são as características normais dos sistemas sociais, não menos que o equilíbrio e a harmonia. O problema não esta em se achar a harmonia e o equilíbrio, bons para a cultura e a sociedade, e a mudança e o conflito perniciosos. Ninguém pode negar a existência de conflitos em qualquer sociedade. Mas podemos afirmar que aquelas sociedades mais isoladas passam por menor quantidade de conflitos. E quanto mais complexa for a sociedade, maior será a capacidade de absorver conflitos.
Encontramos duas orientações básicas em torno aos problemas da mudança que congregam a maioria dos teóricos do assunto:
- Determinismo económico (orientação marxista);
- Determinismo cultural (M. Webber).

a)Quanto ao determinismo económico, salientamos resumidamente:
- Marx põe em evidência a permanência de conflitos, em qualquer sociedade;
- Os conflitos põem necessariamente dois grupos;
- O conflito é motor da história;
- Factores estruturais de mudança social são: forças exógenas (intervêm do exterior do sistema); e forças endógenas, que são engendradas pelo próprio funcionamento de uma cultura.
b) Quanto ao determinismo cultural, Webber tenta demonstrar como os valores culturais podem determinar um tipo de economia. O que para Marx é causa, para Webber é efeito.

Nós, sem nos inclinarmos para uma outra teoria, registamos ambas posições que iluminam de facto, desde ângulos diferentes toda a questão, ou em parte, da mudança cultural dos povos.

2.1.A descoberta e a invenção
A descoberta e a invenção constituem os pontos de partida para o estudo do crescimento e das modificações culturais e são os fenómenos que promovem a mudança e a transformação da cultura (LINTON). Com estes fenómenos tenta-se responder ao interrogatório de como nascem os elementos culturais.

2.1.1. Compreensão dos termos “descoberta e invenção”

2.1.1.1.Características comuns:
- Ambos termos associam a ideia de novidade;
- Nos dois casos trata-se de elementos originários dentro das linhas de uma determinada sociedade e respectiva cultura.

De facto, reconhece-se as invenções pertencentes a povos diferentes do próprio povo. Reconhecemos invenções chinesas, russas, americanas, etc; pelo que se distinguem os elementos inventados ou descobertos dos elementos tomados de empréstimo, os quais chegam a uma cultura já com formas e funções desenvolvidas.

2.1.1.2.Características próprias
Popularmente fala-se de descobertas, como resultado do acaso; e de invenção, como intencional. Mas esta distinção não satisfaz; pois, põe exemplo, a descoberta de novo elemento químico é fruto de todo um processo deliberado e completamente baseado em motivações.
É mesmo nas descobertas causais, o factor importante o desde o ponto de vista cultural, não é mero reconhecimento de um fenómeno; mas sim a percepção do que este fenómeno implica e a compreensão de seus potenciais de aplicação. Sem esta aplicação de processos, afirma LINTON, a descoberta permanecera uma informação isolada ficando, desprovida de qualquer significação social.
O mesmo autor, apresenta o exemplo de compostos químicos, cuja existência é conhecida, mas para os quais não se encontrou aplicação. São elementos latentes, disse ele, que só se tornarão activos funcionais, quando algum inventor descobrir um meio de combina-los com outros conhecimentos em ordem a produzir resultados socialmente significativos.

2.1.2. Definição
De acordo com LINTON, citado por MARTINEZ (2003:58), descoberta é todo acréscimo do conhecimento. Por sua vez, a invenção é toda nova aplicação do conhecimento.

2.1.3. Explicação
No processo de mudança cultural, é a aplicação do conhecimento – invenção – que tem importância funcional para a cultura, por isso é necessária referirmo-nos a todos elementos activos, desenvolvidos dentro do quadro de uma determinada cultura e sociedade, como sendo invenções.
Toda nova aplicação de conhecimentos exige o exercício de funções racionais que pertencem exclusivamente aos indivíduos. As sociedades enquanto tais, são incapazes de pensar, e, portanto, de inventar. Os indivíduos são os únicos agentes da invenção.
A força que move o inventor pode ser um incitamento interior, o prestígio ou a recompensa. Casos diferentes são apontados para as sociedades de pequena escala e para as sociedades tecnicamente avançadas. Numa sociedade não industrializada só quando surge a consciência de que algumas das suas necessidades não estão sendo solucionadas adequadamente, é que a invenção poderá trazer prestígio ao inventor. Em condições normais tais crises são raras.
Quando uma sociedade se encontra num ambiente natural novo que torna impraticáveis algumas das suas técnicas económicas, a melhor solução é tomar por empréstimo.
As situações de crise, nas quais é mais urgente inventar, são aquelas em que a própria existência da sociedade e cultura está ameaçada: aparecimentos dos Messias, invenções sociais e religiosas, etc.
Todas as culturas incluem exemplos de invenções em todos os campos, pelo menos de pequenas invenções. Isto não se pode explicar pela suposição de que o inventor é um instrumento que a sociedade emprega para satisfazer suas necessidades e a quem recompensa pelo trabalho eficiente. Também não se pode explicar só na base do desejo individual de proveitos económicos ou de prestígio.
O reconhecimento social e a esperança de recompensa são estímulos para a invenção, mas não são todos os estímulos, deve haver mais alguma coisa que reside na psicologia do inventor, que o leva a esforçar-se por produzir coisas novas, independentemente das significações sociais que elas implicam. (Linton, citado por MARTINEZ, 2003:58-59)

2.1.4. O Inventor
Há uma tomada de consciência das deficiências culturais existentes no seio do próprio grupo. E geralmente esta tomada de consciência é assumida por alguém que podemos considerar em certo sentido fora do normal: sobressaem pela percepção das falhas culturais e pelo esforço deliberado utilizado em ordem a superá-las.
Às vezes as invenções não são aceites pela sociedade porque o clima ainda não é propício, não estão criadas todas as condições para a sua incorporação no grupo em questão. Isto demonstra que o inventor não é um agente inconsciente dominado e dirigido pela sociedade. Normalmente na base de uma invenção e do esforço do agente há motivações pessoais e factores grandemente complicados e um conjunto complexo de circunstâncias.

2.1.5. Classificação
De acordo com MARTINEZ (2003:60), as invenções podem ser classificadas na seguinte ordem:

2.1.5.1.Classificação Descritiva
Ø Invenções tecnológicas;
Ø Invenções sociais;
Ø Invenções religiosas.
Há dificuldades em traçar linhas limítrofes nesta classificação, pois umas podem assumir aspectos das outras.

2.1.5.2.Classificação Finalista
Ø Invenções básicas: aquelas invenções que envolvem aplicação de um novo princípio ou de uma nova combinação de princípios. É básica no sentido em que abre novas potencialidades de progresso e se destina, no decorrer normal dos acontecimentos, a tornar-se fundamento de toda uma série de outras invenções.
Ø Invenções de aperfeiçoamento: trata-se da modificação de algum invento anterior levada a termo com o objectivo de aumentar a sua eficiência ou de torná-la aplicável a algum novo fim.

2.1.6. Ambiente Cultural
O conhecimento incorporado em toda invenção provém do ambiente cultural do inventor na sua maior parte e todo o inventor age sobre o património de conhecimentos previamente adquiridos. Tudo o que é novo, afirma Linton (citado por MARTINEZ, 2003:61), provém directamente de outras coisas preexistentes.
Em certo sentido pode-se afirmar que a cultura em que age o inventor limita a sua acção. Certas invenções seriam incompreensíveis fora do ambiente cultural onde surgiram, pelo que a cultura fornece, o que poderíamos chamar, os instrumentos de trabalho e, ao mesmo tempo, controla o rumo da invenção. Em base a este princípio fala-se de interesses culturalmente estabelecidos, pelo que uns povos focalizam certos aspectos e outros, aspectos diferentes.



2.1.7. Selecção/Aceitação
Ø É vitoriosa toda a invenção que a sociedade incorpora no seu património cultural;
Ø Factores dominantes são os interesses da sociedade;
Ø No seu conjunto os factores são complexos e variáveis de sociedade para sociedade;
Ø As invenções mecânicas pelo geral são bem aceites;
Ø As invenções sociais e religiosas contam sempre com uma certa hostilidade, variando o seu grau de sociedade para sociedade;
Ø Em todos os casos, trata-se sempre de um processo lento;
Ø É reduzido o número das invenções incorporadas à cultura e no enriquecimento progressivo de sua cultura, nenhuma sociedade empregou jamais um décimo sequer da capacidade inventiva de seus membros. Pelo que todas as culturas crescem principalmente à custa de empréstimos.

2.2.Difusão
Todo o grupo humano toma por empréstimo mais elementos de cultura que os iniciais, pelo que o fenómeno da difusão da cultura é incontestável.
Nesse processo observamos trocas e permutas, propagação de elementos de uma determinada cultura para outra. Para que tal aconteça é necessário que haja contactos entre os povos. A difusão de valores culturais não ocorre mecanicamente. Não se trata de um processo homogéneo e rectilíneo. São muitos e variados os factores que concorrem para que se dê a difusão de valores culturais.

2.2.1. Definição
De acordo com Linton, citado por MARTINEZ (2003:64), difusão cultural é a transmissão de elementos culturais de uma sociedade para outra.
A difusão contribui inegavelmente para o progresso dos povos e o crescimento cultural da humanidade em dois sentidos:
Ø Estimulando o crescimento da cultura como um todo;
Ø Enriquecendo o conteúdo das culturas particulares.
Com este processo não foi necessário que cada sociedade aperfeiçoasse por si própria cada passo na dinâmica do próprio desenvolvimento cultural.


2.2.2. Princípios
MARTINEZ (2003:64-65) ilustra dois princípios centrais no processo de difusão cultural, que a seguir são apontados:

2.2.2.1.Princípio da Proximidade Geográfica
Em igualdade de condições, os elementos culturais serão adoptados primeiro pelas sociedade que estiverem mais próximas dos pontos de origem de um determinado traço cultural.
Este princípio resulta da necessidade de contacto e de tempo para que um traço cultural seja difundido. Vários exemplos podem ser ilustrados, como o alfabeto: de semitas a fenícios e destes a gregos e logo a romanos e demais povos.

2.2.2.2.Princípios das Sobrevivências Marginais
Ø O traço cultural estende-se às sociedades próximas;
Ø Enquanto se difunde a outras culturas, na origem dão-se modificações;
Ø O traço cultural difundido (traço antigo) continua vivo na cultura onde foi assimilado e desapareceu ou sofreu modificações na cultura de origem.

2.2.3. Disseminação Irregular
A disseminação de traços culturais nunca se dá de uma maneira constante e uniforme e até a disseminação de traços culturais provenientes de uma mesma fonte original tem comummente um desenvolvimento diferente. Por exemplo, o cultivo do milho e a cerâmica. Um grupo intermédio, interposto entre um grupo difusor e um outro receptor, pode tornar-se barreira e até travar a difusão. Pelo que podemos afirmar que os traços culturais se disseminam irregularmente.

2.2.4. Grupos de Elementos
A difusão de um só traço cultural dificilmente acontece. O normal é que difundam grupos de elementos culturais, um traço cultural leva mais um ou outros traços na sua difusão.

2.2.5. Agentes
A difusão exige, segundo MARTINEZ (2003: 66), a presença no processo de um pólo emissor e de um pólo receptor. Ou seja, os agentes no processo de difusão podem ser:
Ø O doador;
Ø O receptor.
O pólo mais importante é o receptor.

2.2.6. Três Fases
a) Apresentação dos traços culturais que exige contacto e estes podem ser:
Ø Completos (por unidades);
Ø Esporádicos;
Ø Isolados.

b) Aceitação dos traços culturais;
c) Aceitação dos mesmos na cultura receptora.

2.2.7. Factores de Influência
a) Factor tempo;
b) Comunicabilidade intrínseca do próprio traço cultural;
c) Os elementos técnicos são mais fáceis.

2.2.8. Dificuldades de Incomunicabilidade
a) Emoções, reacções ligadas a certos padrões;
b) Conceitos não manifestos no comportamento;
c) Valores e atitudes vitais ocultos.

2.2.9. Reacção do Grupo Receptor
a) Liberdade, voluntariedade na aceitação;
b) Factores que controlam a receptividade:
Ø Utilidade;
Ø Compatibilidade com a própria cultura;
Ø Prestígio do doador;
Ø A moda.

2.3. A Aculturação
O termo aculturação pode ser usado como sinonimo de socialização, educação ou condicionamento. Porém, alguns autores preferem usar o termo transculturação em detrimento de aculturação.

2.3.1. Definição
Considera a cultura algo estático e congelado, e as influências de um grupo social sobre outro um processo de desconstrução da identidade, deformação. Está associado à ideia de extinção, descaracterização/desestruturação social, cultural e perda de identidade. Conceito pouco apropriado para o contexto actual, pois pelas correntes antropológicas contemporâneas, a cultura não morre, ela se ressignifica.
São aqueles fenómenos surgidos onde grupos de indivíduos que têm culturas diferentes entram em contacto contínuo de primeira-mão, com subsequentes mudanças nos padrões da cultura original de um dos grupos ou de ambos (MARTINEZ, citando Herskovits, 2003:67).

2.3.2. Generalidades
a) Contactos;
b) Empréstimos mútuos;
c) Grupo dominante.

Em qualquer contacto, todos os povos que dele participam tomam mutuamente emprestado. Uma posição que não aceitasse este princípio, é psicologicamente insustentável. O ser humano e os grupos humanos nunca são totalmente passivos. Até mesmo os escravos e prisioneiros reagem à sua situação de uma maneira eficaz até ao ponto de mudar ou influir na mudança cultural. Há abundantes provas de que resistiram as culturas africanas às investidas dos europeus e da influência directa da vida africana nos europeus que viviam e vivem em África (Fernandez, citado por MARTINEZ, 2003:68).
O termo aculturação não implica nunca que as culturas que entram em contacto se devam distinguir entre elas como sendo alguma delas superior às outras.
A transmissão de cultura dá-se quando dois grupos sociais entram em contacto.
Quando um grupo obriga as mudanças nos modos de vida de um povo conquistado, é chamado grupo dominante. São situações que vão-se repetindo através da história: a dominação maometana no norte de África e em outros países, os Inca do Peru sobre os grupos locais americanos, povos invasores nilóticos sobre os povos agricultores da África oriental e os povos colonialistas de todos os tempos.
A parte o maior ou menor domínio de um povo sobre outro, em todas as situações registadas pela História, elas diferem em grau e não em género quando um povo tentou reger os modos de vida de um outro povo.

2.3.3. Tipos de Contactos
a) Pelo tamanho:
Ø Populações inteiras;
Ø Segmentos;
Ø Agrupamentos menores;
Ø Indivíduos.

b) Pelo acolhimento:
Ø Amistoso:
ü Sem menosprezo;
ü Sem uso da força:
ü Sem domínio político;
ü Sem domínio económico;
ü Abundância de recursos.
Ø Hostil:
ü O contacto hostil não impede o intercâmbio cultural.

c) Pela equivalência:
Ø Entre grupos iguais em tamanho ou entre grupos desiguais;
Ø Entre grupos iguais na complexidade cultural, ou desiguais;
Ø Contactos no próprio “habitat”.

2.3.4. Situações em que se dá a Aculturação
a) Obrigatoriedade ou voluntariedade da aceitação dos elementos culturais de um povo por um outro;
b) Quando se dá a igualdade social e política entre os povos em contacto;
c) Quando se dá domínio de um povo sobre outro povo; podem acontecer três situações:
Ø Domínio político, mas não social;
Ø Domínio político e social;
Ø Reconhece-se a superioridade social de um grupo sem que exista domínio político.

2.3.5. As Culturas ou Traços Culturais Resultantes
a) O elemento emprestado é sempre fundido com o existente; é a dinâmica criadora;
b) O empréstimo é selectivo: os elementos de uma cultura apresentados a outra podem ser aceites ou rejeitados.

2.4. A Desculturação
O fenómeno da desculturação é tido como o aspecto negativo do processo da dinâmica cultural, pois subtrai ou destrói o património cultural.
É neste sentido que Bernardi, citado por MARTINEZ (2003:71), prefere definir a desculturação como sendo simplesmente destruição do património cultural.

2.4.1. Causas
As causas desse processo podem ser internas ou externas. Analisemos, então, as causas do processo de desculturação:
a) Internas: perdas de energia da própria cultura (reduz a força dos indivíduos e da comunidade, e vai eliminando a vitalidade dos traços culturais que, se não houver um processo regenerador, caem em desuso e desaparecem);
b) Externas: crises originadas por contactos culturais.
As crises têm efeitos contrastantes segundo a natureza dos encontros (pacífica, violenta, livre, opressiva ou de qualquer outra forma). Pode-se afirmar que uma novidade que surge em qualquer sector da vida (económico, político, religioso ou técnico) traz consigo inevitavelmente uma quebra da identidade cultural original. Mas a autenticidade por assim dizer pura, tem, de facto, um valor em certo qual senso relativo, pois a cultura movimenta-se, transforma-se, contrariamente feneceria.

2.4.2. Modalidades
1 - A desculturação acontece de maneira imperceptível e lenta, afectando a um ou outro traço cultural. Desta maneira subtil vai mudando o estilo da vida de uma comunidade. Na prática observamos o que já deixou de pertencer à cultura viva e actual de um povo.
Tais fenómenos, por si só, assinalam de facto, o desaparecimento de traços culturais em questão, pelo que se tornam verdadeiros índices de desculturação.
2 – Fenómenos que acontecem de maneira traumática. Tais fenómenos disseminam lágrimas e sangue: episódios de genocídio, extermínio trágico de pessoas, associado muitas vezes ao cálculo programado de destruição de culturas; o comércio de escravos, os campos nazis, os extermínios rácicos actuais …, vergonha da humanidade, de quem os praticou ou ainda os pratica, de quem os aprovou ou ainda os aprova, de quem os consentiu ou consente, de quem os silenciou ou silencia e não protestou ou não protesta.
A doutrina aberrante da superioridade da raça, com a qual se identificava a cultura, era tida como critério absoluto de juízo. Durante o colonialismo em muitas partes da terra muitas das expedições punitivas, ou da assim chamada pacificação dos territórios, eram verdadeiras represálias de extermínio. Os últimos casos de genocídio assinalados nos nossos dias apresentam-se com a mesma gravidade dos tempos passados.

IV. RELAÇÃO ENTRE A ANTROPOLOGIA E A EDUCAÇÃO
A educação assenta sempre na convicção de que o homem detém a capacidade de intervir na sua evolução ou, pelo menos, de a acolher no âmbito do seu sentido antropológico. O que quer dizer que o positivismo inerente as posições behavioristas, quando utilizados explícita ou implicitamente pelas pedagogias prospectivas, se traduz, em última instância, por uma autêntica exponenciação do legado humanista e de todo o seu ideário (CARVALHO, 1998:139).
Tendo em conta a antropologia estuda a história do desenvolvimento humano no seu todo, suas origens, uso e costumes, raça, adaptação, evolução ao meio que são considerados herança social, a educação tem como objectivo observar os programas de ensino adequados para se atingir tais objectivos, a fim de preservar os valores sociais.
No seu livro Psicanálise e Antropologia, Geza Roheim cita o exemplo: “dos Kaigang, vivendo actualmente como nómadas refugiados nas montanhas entre a Argentina e o Brasil, depois de serem expulsos do planalto onde praticavam a agricultura do milho. O traumatismo provocado pela separação do seu habitat «natural» fez dos Kaigang um povo angustiado e desinteressado pelas relações sociais, sendo o suicídio uma prática habitual entre eles” (CASAL, 1996:28).

ANTROPOLOGIA PEDAGÓGICA E ANTROPOLOGIA EDUCACIONAL
Se, de facto, ao surgir como uma antropologia, ela parece inserir-se no conjunto de disciplinas antropológicas próprias das ciências humanas em geral, ao mesmo tempo, o seu carácter pedagógico acaba por lhe imprimir uma face doutrinária, ou, talvez melhor, uma feição normativa de difícil compatibilização com aquelas. Por isso, alguns autores preferem apelidá-la de antropologia educacional o que, resolvendo, em princípio, a dificuldade anterior, vem a gerar, todavia, uma outra: a tirada deste modo, para o terreno das ciências antropológicas e das ciências de educação, eis que sobressaltam as questões ligadas à instabilidade epistemológica destas últimas. Ficam, por outro lado, algumas dúvidas quanto à legitimidade da substituição proposta já que tudo leva a crer que os campos de uma e de outra – da antropologia pedagógica e da antropologia educacional – parecem não se sobreporem e muito menos fundirem-se. Enquanto a antropologia educacional se situa muita mais do lado das ciências, como a sociologia, que estudam a educação como um objecto autónomo e exterior, com fortes contornos sociais e culturais, a antropologia pedagógica surge directamente implicada na construção dos factos e dos discursos educativos, chegando aqueles a decorrer para certos autores, das suas formulações e das suas intervenções. A ideia de uma antropagogia, entendida como uma “ciência prático-normativo da formação do homem” aproxima-se desta última concepção (CARVALHO, 1998:70-71).

RELAÇÃO DA ANTROPOLOGIA PEDAGÓGICA COM A ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA
Quando se organiza nestas condições, a antropologia educacional estuda a vertente educativa inerente aos fenómenos culturais, interessando-se aí, predominantemente, ou pelas abordagens descritivas e pelas análises comparativas (em apoio das planificações educativas), ou pelo estudo da educação como efeito ou acção de enculturação. Em todas as circunstâncias, o estudo dos comportamentos no âmbito das aprendizagens pessoais e sociais, bem como o estabelecimento de regras do método antropológico ocupam uma grande parte das preocupações presentes nos trabalhos de investigação desta antropologia.
Os pedagogos acabarão por encontrar no método antropológico o fundamento de novas atitudes educativas. Uns, vislumbram a educação como um sistema que, percorrendo todas as organizações e agentes sociais, numa dialéctica incessante com os modelos e processos culturais, tem, por isso, de ser apreendido e explicado para ser administrado (CARVALHO, 1998:80-81).


V. CONCLUSÃO

Concluindo o presente trabalho, é necessário salientar que os processos do dinamismo cultural apresentados neste epílogo podem ser estudados em todas e qualquer sociedade viva. Isto é, são processos que ocorrem em todas as sociedades e garantem, sem dúvida alguma, a sua continuidade.
Em suma, pode se dizer que o homem pertencente a uma cultura tem de interiorizá-la para conseguir se identificar nela. Quando crianças, somo induzidos desde cedo à práticas que remontam a necessidade de nós embebedarmo-nos da cultura que nos é inerente, de aprendermos a nossa cultura. Este aspecto refere-se basicamente a enculturação.
Ora, na presente abordagem, pudemos fazer menção de outros dois aspectos bastante importantes na dinâmica cultural: a descoberta e a invenção. Como o homem não é um ser passivo na dinâmica cultural, ele está sujeito a descobrir e a inventar novas coisas que contribuam para o desenvolvimento social. Neste sentido, fica bem patente que a descoberta é todo acréscimo de conhecimento e invenção é toda nova aplicação do conhecimento.
No rolar do epílogo acabamos fazendo também menção da difusão, que seria a transmissão de elementos culturais de uma cultura para a outra.
No que concerne a aculturação, ela implica o contacto de duas culturas pela primeira vez, originando neste contacto processos de mudança social em uma ou ambas culturas. Por outras palavras, aculturação seria o processo de mistura de culturas.
Já no fim do trabalho, deixamos ficar também um conceito muitíssimo importante na dinâmica cultural: a desculturação. Este refere-se ao processo de perda do património cultural, ou seja, a sua destruição.
Foi nesse sentido que esforços foram feitos para trazer a mercê de apresentação do presente trabalho, na ânsia que tenha sido de profunda reflexão em torno da dinâmica cultural e dos processos que nela ocorrem.


VI. BIBLIOGRAFIA

CARVALHO, Adalberto Dias de. A Educação Como Projecto Antropológico. 2ª Edição. Edições Afrontamento. Porto. 1998.
CASAL, Adolfo Yanez. Antropologia e Desenvolvimento – As Aldeias Comunais de Moçambique. Edição Ministério da Ciência e Tecnologia, Instituto de Investigação Científica Tropical. Lisboa. 1996.
MARTINEZ, Francisco Lerma. Antropologia Cultural – Guia Para o Estudo. Edição Paulinas. Maputo. 2003.
DI NAPOLI, George. Antropologia Sócio-religiosa. Corso della Facoltà di Missiologia. Pontifícia Università Gregoriana. Roma. 1985/86.
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